A questão sobre a responsabilidade em acidentes envolvendo veículos autônomos, na ausência de um motorista humano, continua gerando debate. As possíveis partes envolvidas incluem a plataforma de mobilidade, o fabricante do carro, o desenvolvedor da tecnologia, o fornecedor dos sensores ou a empresa responsável pela manutenção. Esta problemática foi abordada em um painel do ITC Vegas por Chris Moore, presidente da Apollo ibott, e Andrew Robinson, CEO do Skyward Group.
A Skyward desenvolveu uma solução de seguro específica para os veículos autônomos que operam na plataforma Uber. O desafio surgiu da estratégia da Uber de colaborar com múltiplos fornecedores de tecnologia autônoma, em vez de se limitar a um único parceiro. Robinson destacou que mais de vinte soluções comerciais de veículos autônomos estão em processo de integração com a Uber.
As apólices de seguro tradicionais não são adequadas para cenários onde um software toma decisões contínuas. Moore explicou que o objetivo era eliminar incertezas na determinação de responsabilidades em caso de sinistro. Enquanto em acidentes com carros convencionais a identificação do motorista e das responsabilidades segue padrões estabelecidos, na condução autônoma vários agentes podem estar implicados.
A solução encontrada foi concentrar todos os riscos em uma única estrutura de seguro. A Skyward criou uma apólice de responsabilidade civil para veículos autônomos, combinando elementos de quatro coberturas tradicionais: automóvel, responsabilidade civil geral, responsabilidade por produtos e cyber. O objetivo é simplificar o processo de indenização e evitar disputas iniciais para definir quem na cadeia de fornecimento deve arcar com o prejuízo. Moore enfatizou que a ideia é ter uma “solução única”, sem que as partes envolvidas fiquem apontando umas para as outras.
Esse seguro está totalmente integrado à operação da Uber. A cobertura é automaticamente incluída no contrato comercial quando um fornecedor de veículos autônomos os coloca na plataforma, e os passageiros não precisam contratar apólices separadas. O modelo de cobrança é baseado na distância percorrida: a seguradora é remunerada por milha. A cobertura é ativada no momento da aceitação da corrida e finalizada quando o passageiro chega ao destino. Robinson classificou isso como um exemplo de seguro “embarcado”, não só na contratação, mas na própria utilização do risco.
O executivo da Skyward informou que dados atuais mostram que veículos autônomos têm uma frequência de acidentes por milha significativamente menor do que aqueles dirigidos por humanos, cerca de dez vezes menor, segundo algumas análises. Ele mencionou que o mercado de seguros de automóveis pessoais nos EUA movimenta aproximadamente 500 bilhões de dólares e, teoricamente, uma redução de dez vezes na frequência de sinistros poderia transformar drasticamente a economia desse setor.
No entanto, essa estimativa não deve ser vista como uma projeção direta. Além da frequência, fatores como a gravidade dos acidentes, custos de reparo dos veículos, responsabilidade civil e decisões judiciais influenciam o cenário, sendo este último um dos maiores pontos de incerteza.
Seguro pode vir junto com o carro
Os executivos preveem que essa lógica será estendida aos consumidores. À medida que os veículos particulares incorporarem maior autonomia, o seguro pode deixar de ser uma compra separada pelo proprietário. A expectativa é que, durante o modo de condução autônoma, a cobertura seja oferecida pelo próprio fabricante do veículo, com uma seguradora subjacente assumindo o risco.
Andrew projetou que o “seguro automóvel estará embarcado no produto”, ou seja, o fabricante fornecerá a cobertura quando o veículo autônomo for comprado e utilizado em modo autônomo. Essa tendência também levanta questionamentos sobre a necessidade de possuir um automóvel.
Em grandes cidades, com a crescente oferta de veículos autônomos sob demanda, os executivos acreditam que a propriedade individual de carros pode diminuir. Contudo, em áreas suburbanas e rurais, a dinâmica deve ser diferente.
Kelly Lubiato, de Las Vegas
